Na Caverna

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Na Caverna

Mensagem por Blodtørstige Warg em Qua Out 07, 2015 12:39 pm


Não havia muita luz. Na verdade, a penumbra já era quase absoluta logo na entrada da caverna. Tudo bem, isso não era problema. Eu nem mesmo precisava improvisar uma tocha ou outra fonte de luz similar. Eu sentia também a umidade, e o ar ali não era dos melhores, sem falar no cheiro do sangue, mas isso também não me incomodou, pois eu também podia sentir o cheiro do perfume. Era adocicado e suave, como tudo nela. Era adocicado e suave, como um cheiro tímido de sândalo que desaparecia aos poucos, como se indicasse a mim que ela estava se afastando cada vez mais para o fundo.

Minha audição captava um gotejar que não cessava, assim como uma respiração levemente ofegante. A respiração, no entanto, eu captava com mais dificuldade, pois estava mais longe. De repente notei que ficava um pouco mais alta, indicando que ela finalmente havia parado. Estava ferida, estava sangrando, mas não era sério. Estava longe de ser um ferimento letal ou perigoso. Como eu sabia? Definitivamente não com os meus cinco sentidos, mas com o meu sexto. Minha alma, meu quinto elemento, que é o que verdadeiramente nos forma, nos define. Akasha! Anima! Era assim. A energia dela estava tão vinculada com a minha que minha intuição não falhava. Eu simplesmente sabia.

Eu continuei caminhando, adentrando cada vez mais fundo. Aquele perfume gostoso aumentava, assim como a respiração que já estava em um ritmo mais calmo agora. Eu caminhava tranquilamente. Não queria assustá-la, tão pouco aparentar algum tipo de ameaça. Continuei caminhando, e finalmente a vi. Eu a vi no escuro, sem dificuldade nenhuma, como se a aura dela emitisse uma luz própria, uma luz divina que a destacava nas sombras e permitia que eu a visse. Uma luz divina...uma luz divina para uma dama linda como uma Deusa. Ela estava ali, vestindo sua túnica branca com seu cordão dourado em volta da cintura. A mancha escarlate ao redor da barriga denunciava o ferimento, mas como eu disse não era letal. Havia ali um brilho vermelho vivo, mas isso não afetou sua beleza de forma alguma. Ela me encarou com os seus olhos grandes por um momento. Olhos tão verdes, como se toda a natureza de gaia estivesse sendo refletida neles. Seus cabelos negros e compridos até o meio de suas costas estavam impecáveis, como se nada daquilo tivesse acontecido. Sua pele branca como marfim parecia ser uma extensão de suas vestes, e agora o perfume estava ainda mais forte. Ela me olhou com um olhar de dúvida, por um momento. Sim, dúvida, mas não medo. Ela percebeu que eu não era ameaça. Ela estava descalça, e notei como era perfeita dos pés a cabeça. Não havia imperfeição. Era uma beleza divina, e eu estava ali pronto para adorá-la como uma Deusa. Pensa você que eu disse algo naquele momento? Não. Não foi preciso. Quando me ajoelhei diante dela e sorri, ela respondeu da mesma forma e agarrou minha mão. Era o mais doce e sereno sorriso que eu tinha visto. Quando ela tocou minha mão, notei que ela estava em paz. Eu senti sua calma. E o que ela deve ter sentido? Provavelmente o calafrio que atravessou meu corpo. Quando segurei sua pequena e bela mão, com aquele toque tão macio, senti minha boca adocicar sem motivo e minha mente foi invadida por uma súbita sensação de alegria, como se nunca mais pudesse haver algo de ruim no mundo. Como disse, não precisei dizer nada. Havia ali uma conexão mística entre nossas almas. Nossos espíritos estavam mais aguçados que nossa carne, nossa matéria. Quando conseguimos elevar nossas almas dessa forma, tudo é possível.

Eu toquei o seu ferimento com a outra mão, sem largar a mão dela. Ela não deixou de sorrir ou exibiu qualquer sinal de dor. Fechei meus olhos e pensei na única coisa que sentia naquele momento: vínculo. Era como se nós dois fossemos um só, e assim transferi de bom grado parte da minha energia para ela. Ah, sim. Isso é cansativo, mas por ela, eu me esgotaria. A minha energia passou por ela como uma luz. A luz que era a minha composição, parte da minha alma, e acredite se quiser, o ferimento desapareceu no mesmo instante.

Ela se levantou e permanecemos em silêncio, mantendo nossos sorrisos um para o outro. Não havia o que dizer. Não é necessário, lembra? Nós saímos de mãos dadas da caverna, e pudemos então respirar ar puro novamente. Muitos vão dizer que tudo isso aconteceu devido a nossa condição. Muitos vão falar que foram os dons dos filhos da mãe lua. Pode até ser, mas havia uma força maior ali. Uma força que, sem ela, nada daquilo teria sido possível. Uma força mágica? Quem sabe demoníaca? Angelical? Sim, essa força é tudo isso. Essa força se chama amor.
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Blodtørstige Warg

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